16 a 28 de Abril 2020

Aldeia Boa Vista, Rio Jordão @ Acre, Brasil

Uma experiência transformadora na Amazônia acreana.

Junte-se a nós, viva a floresta em uma jornada sustentável e consciente.

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O Encontro Huni Kuin Yube Inu é um festival anual do povo Huni Kuin do Rio Jordão, organizado pelas lideranças do Instituto Yube Inu e seus parceiros não-indígenas. Juntos, buscamos fortalecer os vínculos entre as aldeias, valorizar a cultura tradicional e promover a troca de experiências e saberes entre gerações.

 

Além de um momento de união e fortalecimento cultural, o festival é um evento espiritual onde rezamos pela floresta e pela humanidade. Todos os anos reunimos pajés e jovens líderes espirituais da região para condução dos trabalhos, as cerimônias as cerimônias de ayahuasca e outras atividades com as medicinas tradicionais da floresta.

 

O seu destino é a Aldeia Boa Vista, Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão, no estado do Acre, Brasil. A aldeia está localizada a aproximadamente 06 horas de canoa motorizada da cidade mais próxima, Jordão. A região é acessada somente através de via fluvial ou aérea, sendo considerada uma das mais isoladas do país. 

Nos últimos anos, o povo Huni Kuin abriu as aldeias para receber não-indígenas e compartilhar o seu modo de vida, a sua identidade e espiritualidade.  Nas últimas edições do Encontro Huni Kuin, participaram em média 400 parentes de cerca de 14 aldeias das terras indígenas dos rios Jordão, Tarauacá e Humaitá, além de visitantes de 20 diferentes nacionalidades. 

Sabedoria ancestral

A Floresta Amazônica é a maior reserva de plantas medicinais do mundo. O uso das plantas para tratamento de diversos males e enfermidades é tão antigo quanto a espécie humana.

 

O povo Huni Kuin resguarda um amplo conhecimento da flora de sua região, além de possuir um sistema próprio de classificação de suas espécies. Seus conhecimentos, que incluem uma vasta farmacopéia e métodos de cura diversos, são transmitidos de geração em geração há centenas de anos.

Medicinas da Floresta

A espiritualidade do povo Huni Kuin é um dos aspectos culturais mais reconhecidos ao redor do mundo. Um conhecimento amplo e misterioso que é transmitido entre as gerações e perdura até os dias atuais.

O festival é uma oportunidade de se aprofundar nas medicinas da floresta e compreender melhor a profunda conexão entre as medicinas e o povo Huni Kuin, consagrar Nixi Pae (ayahuasca) e entrar em contato com outras medicinas sob orientação de pajés e mestras.

A história "Huã Karu Yuxibu" conta sobre o surgimento das plantas medicinais.

Fonte: Videogame Huni Kuin: Yube Baitana (os caminhos da jiboia), oficina de audiovisual "Cantos, desenhos e histórias do povo Huni Kuin", Jordão, Acre, 2015.

Narração: Dua Busẽ (Manoel Vandique).

Nixi pae

A palavra "nixi" em hãtxa kui (língua Huni Kuin) é cipó e "pae" é traduzido como forte, força. 

 

Nixi Pae é uma bebida sacramental indígena conhecida como ayahuasca, feita pela infusão do Huni (Cipó, Banisteriopsis caapi) e a folhas de Kawa (Chacrona, Psychotria viridis). Contam as histórias que essa medicina veio do mundo da jibóia e seu uso remonta a tempos distantes onde os humanos, as plantas e os seres encantados coexistiam.

 

Os Txanas (pajés-cantadores) e Dauya (pajés-medicina) conduzem a sua experiência durante o ritual de Nixi Pae com os cantos Huni Meka (cantos do cipó). Primeiramente, um momento de concentração onde os cantos tradicionais são utilizados para chamar a força (pae txanima, yube txanima), colorir a miração (dautibuya) e baixar pressão (kayatibu).

 

A segunda parte das cerimônias é marcada pela alegria e movimento, com danças ao redor do fogo e condução das cerimônias com violões, tambores e músicas dos jovens líderes espirituais. A experiência com a medicina é pessoal e ela, conhecida como uma grande professora, ensina a cada um aquilo que necessita no momento presente. Os pajés utilizam essa medicina para trazerem cura, proteção e limpeza, fortalecendo e renovando o corpo material e espiritual. A participação é eletiva.

 

Dume deshke

O rapé (dume deshke) é  uma medicina utilizada nas vias nasais, feita de tabaco e cinzas de árvores como o Kumã (Cumaru, Dipteryx odorata), Yapa (Murici, Byrsonima crassifolia), Xiwe mapu (Pau-pereira, canela-de-velho, Platycyamus regnellii).

 

O rapé é utilizado entre duas pessoas com um instrumento chamado tepi ou com um auto aplicador conhecido como kuripe. É comumente utilizado para limpeza e fortalecimento do corpo, da mente e do espirito, clareando os pensamentos e afastando as fraquezas, maus espiritos e outros males. 

 

Shane tsamati

Shane tsamati ou Sananga (Tabernaemontana sananho), é uma planta medicinal utilizada pelos povos da floresta na forma de colírio. Da casca da raiz da Sananga extrai-se um sumo que é pingado nos olhos, às vezes usando a garra de um gavião real, grande caçador com visão aguçada. O leite provoca um forte ardor que geralmente dura alguns minutos.

A Sananga afasta a panema (má sorte, energias ruins), dá força e clareia a visão e trás sorte durante a caça. Quando um homem passa Sananga para ir caçar, ele deve matar apenas animais grandes, nunca os pequenos, caso contrário perderá toda sua sorte.

Kãpun

O Kambô, um poderoso medicamento e purgante, é utilizado por diversos povos indígenas amazônicos.  A secreção do leite da rã Phyllomedusa bicolor é aplicada como uma vacina na pele e age através da corrente sanguínea.

É utilizado para limpar de forma profunda o organismo e fortalecer o sistema imunológico, retirar a preguiça e indisposição. O processo de limpeza é a garantia de que a medicina está agindo e trazendo boa saúde. Tradicionalmente, é utilizada também para aguçar os sentidos e trazer sorte nas caçadas.

Depois da aplicação é necessário seguir uma dieta específica com abstinência sexual, de carnes, doces (inclui a maioria das frutas) e sal. Caso não siga a dieta, perde-se os efeitos a longo prazo (imunização, fortalecimento) proporcionados pela medicina.

 

 

Nisun Dau

A palavra "Nisun" significa fraqueza ou tontice e "dau" é traduzido como medicina.

Existem centenas de plantas medicinais conhecidas pelo povo Huni Kuin, um extenso conhecimento que é transmitido de forma oral há muitas gerações. As plantas são coletadas por mestras ou pajés na floresta, ou em "parques de medicina", locais onde elas são plantadas juntas no meio da mata.

Existem plantas para proteção, para crescer forte e trabalhador, para curar doenças específicas, para afastar más energias, para ter boa memória, para se dar bem na caçada, para afastar a preguiça e até para acordar cedo. Cada planta possui um nome, uma forma de preparo e uso, sendo a maioria utilizada em banhos de ervas.

Os banhos de medicina são uma das práticas de cura e saúde preventiva mais fundamentais para o povo Huni Kuin.  Durante o festival, os Dauya (pajés-medicina) coletam e preparam as folhas de diversas medicinas, utilizando em média 50-80 diferentes espécies. Essas medicinas são usadas nas defumações e banhos durante todo o festival.

Atividades

∙ Caminhadas pela floresta e parques de medicina.

∙ Introdução às plantas medicinais.

∙ Banhos e defumação com ervas medicinais.

∙ Cerimônias de Nixi Pae.

∙ Aplicação dos colírios bawe e sananga.

∙ Aplicação da vacina do sapo kãpun.

∙ Roda de dume deshke.

∙ Oficinas de feitio de medicinas.

∙ Outras práticas medicinais ancestrais.

∙ Contato direto com pajés e txanas.

Cultura Viva

Após anos de repressão à sua cultura, o povo Huni Kuin vive um tempo de resgate e fortalecimento cultural.

 

É uma honra reunirmos anciões e anciãs de diversas aldeias da região, verdadeiros livros vivos, responsáveis por transmitir toda a tradição oral e prática aos jovens.

O povo Huni Kuin, por centenas de gerações, transmite seus extensos conhecimentos de forma oral e prática. Apesar de períodos de perseguição, extermínio e escravidão, muitos dos saberes puderam ser preservados até os dias atuais, graças a determinação e coragem dos mais velhos.

É na tradição oral que se baseia a identidade cultural mais profunda de um povo. A cultura oral preserva não apenas mitos, contos, canções e rezas, mas também saberes práticos necessários para a sobrevivência como a confecção de utensílios, reconhecimento de plantas e produção de alimentos.

 

Além disso, é através da oralidade que se preserva a língua e a história do povo, garantindo às novas gerações o conhecimento dos seus antepassados.

Artesanato

Kene


Padrões geométricos que refletem a cultura e a cosmologia de Huni Kuin. É uma arte feminina que pode comunicar por exemplo o clã ao qual pertence a pessoa ou ser usada para adquirir determinado aspecto ou característica. As mulheres aplicam os padrões nas pinturas corporais, tecelagem, decoração de cerâmicas e elaboração de cestarias.

 

Pintura Corporal

A pintura corporal utiliza tintas naturais, provindas de árvores e frutos e transmite mensagens fundamentais quanto à cosmologia, aos mitos, à identidade e à cultura Huni Kuin. As mais utilizadas são preparadas através do jenipapo e do urucum. A tinta de jenipapo é produzida com o jenipapo verde, do qual é extraído um sumo negro-azulado que se torna preto em contato com a pele. Essa tinta tem grande durabilidade na pele (até duas semanas) e traz proteção e força. Aquela feita com urucum é extraída de suas sementes, que possuem a cor vermelha ou alaranjada, ela poder ser usada fresca ou cozida até formar uma tinta pastosa e densa. O urucum tem a função de proteger as pessoas dos yuxin (espíritos da floresta) e por isso é muito importante no feitio e nas cerimônias. 

 

 

Cerâmica


As mulheres preservam o ofício milenar da cerâmica e trabalham quase sempre juntas, desde a obtenção da argila até a queima das peças. Os objetos mais comuns são os utensílios de cozinha e os grandes vasos para produzir mabesh pae (caiçuma forte), bebida de mandioca fermentada.

 

 

Tecelagem


A tecelagem é uma das formas mais antigas de arte manual, presente em quase todos os povos do mundo através de técnicas e materiais diferentes. Na cultura Huni Kuin a arte de fiar e tecer foi ensinada por Basnen Puru, a Aranha Encantada, que ficou com pena das mulheres que não tinham roupa pra vestir e ensinou-as a fiar o algodão para fazer vestimentas e redes para dormir. Produzem-se redes, tipoias, coletes, sãputari (vestimenta tradicional masculina), saias, faixas, bolsas, etc.

 


Palha trançada


A arte de trançar palha é outra prática cotidiana. As mestras deste ofício fazem tudo com muita rapidez e habilidade, entrelaçando as tramas (elementos horizontais) e urdiduras (elementos verticais) para formar os kene nas peças.⁣ Fabricam-se abanos para atiçar o fogo, cestos de variados tamanhos usados para servir alimentos, guardar penas e sementes ou servir de lixeira, além de esteiras para as mulheres se sentarem.⁣

Artesanato de miçanga


O povo Huni Kuin começou a utilizar as miçangas entre os anos 80 e 90, e logo se tornaram exímios na arte de fazer adereços desenhando nas peças seus grafismos sagrados. Neste processo as miçangas foram incorporadas à sua cosmovisão, sendo relacionadas com antigas histórias. As peças são produzidas geralmente pelas mulheres, que dominam a arte dos grafismos. Miçanga por miçanga elas vão desenhando as formas intrincadas dos padrões ancestrais, relacionados à espíritos e elementos da natureza.

Feira de Artesanato

No evento as artesãs e artesãos exibem suas diversas artes, a vista se enche de cores e formas e é possível conhecer a variedade de criações do povo da floresta. O elemento da feira é a beleza, encontrada nos colares, pulseira, anéis, faixas, bolsas, roupas, brincos de miçangas, sementes e tecelagens de algodão. Temos também arco-e-flecha, utensílios de cerâmica, cestos e abanos de palha trançada e outras obras. Esse é o momento de incentivar a economia local e a produção artesanal, além de poder se enfeitar e adquirir presentes e lembranças da floresta.

Só alegria

Huni Meka


Os canticos de Huni Meka (cantos do cipó) são parte essencial da cultura tradicional, um dos aspectos mais bem preservados e conhecidos. Além das músicas cerimoniais de Nixi Pae, existem cantos específicos para plantio, festas e ritos tradicionais como Katxanawa, Bunawa e Txiri, aprendizagem dos grafismos, batismo de Nixpu Pima e rezos de cura chamados de Pakarin.

Os jovens Huni Kuin trazem a alegria e animação, tocando durante todo tempo versões das músicas tradicionais com instrumentos como violão, tambor, charango, triangulo, flauta. Além disso, existem muitas músicas em português dos compositores Huni Kuin. Cada aldeia tem o seu grupo, com seus jovens artistas, pajés e mulheres e ensaiam durante todo o ano para apresentarem o seu trabalho nos festivais e retiros. Recentemente as mulheres Huni Kuin iniciaram seus próprios grupos e lideram cerimônias de ayahuasca.

Katxanawa


O Katxanawa é uma festa ligada aos ciclos agrícolas, conhecida como "festa de chamar o espírito dos legumes" em que são cantadas rezas específicas para invocar abundância para todos os cultivos Huni Kuin. A festa também é vinculada à fertilidade, sendo a fertilidade das pessoas e a abundância da terra conectadas.  É composta por diversas atividades e ritos específicos e durante festivais e ocasiões especiais alguns destes aspectos são compartilhados, como a dança de mariri, a brincadeira do Kaxin Ika e o canto de músicas relacionadas aos cultivos.

 


Jogos e brincadeiras

Os Huni Kuin apreciam a alegria e a brincadeira, o que para eles é um sinal de saúde e bem-estar. Além do jogo de arco-e-flecha, lanças, corridas as brincadeiras mais apreciadas são a pega-cana e a de arrancar macaxeira. Faz parte do festival o tradicional jogo de futebol e todos são convidados a participar.

 

Contação de História


Ouvir histórias na aldeia - às vezes perto das chamas de uma fogueira, rodeado de crianças, com o céu coberto de estrelas, os sons da floresta como fundo e o silêncio do coração imperando - é um momento sublime. Através das histórias e mitos podemos mergulhar em tempos remotos em que a vida era muito diferente e a floresta e a humanidade se relacionavam de forma profunda.

Vivências Culturais

∙ Aula de hãtxa-kuin (idioma local)

Kene (geometria sagrada) e tintas naturais

Pinturas corporais e sua simbologia

Práticas agrícolas e visita aos roçados

Culinária tradicional

Oficina de artesanato com fibras

Huni Meka: músicas ritualisticas Huni Kuin

Contação de histórias e mitos

Jogos e brincadeiras tradicionais

Feira de artesanato

Katxanawa (ritual da fertilidade/abundância)